Jefferson Adorno e Marianna Zibordi

NOSSA HISTÓRIA (contada por Jefferson) 

Meu avô paterno Nenê, com descendência italiana da região de Gênova, tinha como um de seus antecessores o Bandeirante Antônio Dias Adorno. Minha avó Lia era brasileira legítima, nascida na Bahia. Eles tiveram 8 filhos, o meu pai Aldo era o caçula, todos foram criados no “Sítio Pau-Brasil”, no município de Pompéia/SP, comprado pelo meu avô em 1929 inicialmente com 15 alqueires. 

Pelo lado materno, a minha mãe Marlene era a filha mais velha, e assim como meu pai, também tinha 7 irmãos. Meu avô materno José Rissato também era descendente de italianos e a minha vó Almerinda de índios. Eles também eram agricultores e moravam num pequeno sítio próximo à cidade de Pompéia / SP, onde minha mãe conseguiu estudar até a 8ª série. Em 1965 meus pais começaram a namorar, e em 1966 a minha mãe com toda a sua família mudou-se para a cidade de Campinas/SP.

Voltando ao lado paterno, o “Sítio Pau-Brasil“ onde meu pai nasceu, de tão diversificado, era quase auto suficiente. Lá eles cultivavam 10 mil pés de café, arroz, feijão, batata, algodão, etc... além da criação de vários animais.  Com uma vida muito humilde e com uma família grande como essa todos precisavam ajudar. As meninas cuidavam dos irmãos mais novos e do serviço da casa e os  meninos ajudavam na lavoura.

Em 1944, utilizando de suas habilidades em carpintaria,  o vô Nenê construiu com suas próprias mãos uma escola  toda de madeira (construção típica da época) e ainda dava pensão aos professores com cama, mesa e roupa lavada. Lá as crianças estudavam até o terceiro ano escolar. Aldo, meu pai, estudou nesta escola até o terceiro ano e depois completou seus estudos na cidade até se formar no curso de contabilidade.

Meu pai ajudou meu avô no sítio até seus 18 anos, quando começou a trabalhar de office boy no banco Bradesco em Pompéia. Lá ele trabalhou por 43 anos e durante este período foi transferido para várias cidades, dentre elas Curitiba – PR, onde eu (Jefferson) nasci em 1971. Aposentou-se em São Paulo capital como Diretor, sendo o Bradesco o seu primeiro e último emprego. 

Com o falecimento do vô Nenê em 1972, meus tios tentaram continuar a sobreviver da produção do sítio, mas enfrentaram muitas dificuldades e precisaram vendê-lo. Nesta época o sítio já tinha 145 alqueires. Após a aposentadoria o sonho dos meus pais era voltar às suas origens e se possível voltar a produzir café. Após quase 2 anos de muita procura, foi em 1994 que conheceram a Fazenda Retiro Santo Antônio, na época uma propriedade muito abandonada, com as lavouras de café “queimadas” pela fortíssima geada que atingiu a região naquele ano. A partir daí começaram um árduo trabalho de reconstrução de toda a fazenda, pois não havia nada em boas condições de uso, nem as lavouras, nem pastagens, cercas, captação de água e muito menos as moradias da Sede e dos funcionários.

Meus dois irmãos e eu nesta época morávamos em São Paulo. Eu com 23 anos já era recém-casado e tinha um filho de 1 ano, e estava me formando na universidade como Engenheiro Eletrônico. Trabalhei nesta área, com terno e gravata, passando de 2 a 4 “agradáveis” horas por dia preso no trânsito, que era muito melhor do que atualmente.

Foi então em 1999 que aconteceu a melhor coisa da minha vida: fui sequestrado. Pois é, eu que já estava separado, estava indo visitar meu filho como eu fazia 3 a 4 vezes por semana, e sofri um daqueles sequestros relâmpago. Um pouco depois, em jan´2000, viajando sozinho por um mês pela Bolívia e Peru, refleti muito sobre a qualidade de vida que eu levava morando e trabalhando em uma megalópole, sobre o sequestro, se era isto que eu queria para os meus filhos, etc... e quando eu estava em Macchu Picchu tomei a decisão de me mudar para a Fazenda e recomeçar uma nova vida. Em 13 de junho de 2000 cheguei na Fazenda Retiro Santo Antônio para começar o meu novo projeto de vida: plantar cogumelos shiitake. Foi o que fiz por alguns anos com muita alegria e motivação, através do shiitake conheci a minha atual esposa que também era produtora.  No início de 2004 aconteceu a segunda melhor coisa da minha vida (lembram que a primeira foi o sequestro?): tive uma contaminação generalizada nas toras de eucalipto onde era cultivado  o cogumelo shiitake e perdi 80% da minha produção, com isto eu fui praticamente à falência. 

Até esta época eu pouco ajudava meus pais com o restante da Fazenda. Eles continuavam morando em São Paulo e viajando para a Fazenda quase semanalmente. Quando chegavam tinham sempre muitos problemas para resolver. Eles que deram início a boa parte do trabalho social que mantemos até hoje, como a celebração de missas, realização da Festa de Santo Antônio, lembranças e brincadeiras com as crianças na Páscoa, além das contínuas melhorias e reformas nas benfeitorias da Fazenda. Já cansados desta rotina que realizavam por quase 10 anos (desde 1994), decidiram então vender a Fazenda. Aí eu entrei em pânico, voltar a morar em São Paulo? Trabalhar de terno e gravata de novo? Foi então que tomei a difícil decisão de parar definitivamente com a produção de cogumelos e começar a ajudá-los com o restante da Fazenda, principalmente com o café.

Apesar de morar na Fazenda já há 4 anos eu não entendia quase nada sobre a produção de café, mas graças à ajuda de nosso antigo administrador sr. Luiz Tozzini, um sábio de quase 80 anos que trabalhava aqui na Fazenda desde 1955, fui aprendendo e me apaixonando pela cultura do café. Sabendo que eu tinha ainda muito que aprender, comecei a estudar muito, visitar produtores e institutos de pesquisa, participar de dias de campo, palestras, etc... E aos poucos começamos a implantar novas idéias na Fazenda, para o desespero do sr. Luiz, que tinha seus métodos bem tradicionais de trabalho baseado no que aprendeu e praticou durante décadas. Na época não tínhamos a consciência do que estávamos começando a fazer, mas nascia ali o Café Sustentável que fazemos hoje.

Nos primeiros anos enfrentei com bom humor as descrenças inclusive dos demais produtores por tentar fazer algo diferente do convencional,   mas também quem seria o louco de apoiar um Engenheiro Eletrônico querendo mudar os métodos  de conduzir uma lavoura de café realizados há décadas ? Acho que nem eu...

Em 2009, mesmo sendo cafeicultor somente há 5 anos, fomos agraciados com o prêmio “Cafeicultor Destaque do Brasil”, fornecido pelo CECAFÉ – Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, o que nos deu a certeza de que estávamos num bom caminho.

E assim continuamos nossa história até hoje, sempre aprendendo, inovando, buscando a harmonia com todos ao nosso redor, o equilíbrio para atender as necessidades sociais e, ao mesmo tempo, contribuir com a preservação da natureza. Não são poucas as dificuldades que enfrentamos em nosso dia a dia, mas procuramos sempre conduzir este pequeno espaço de terra chamado Retiro Santo Antônio com todo o respeito que as pessoas e a natureza merecem, para que meus filhos, bisnetos do vô Nenê e do vô José Rissato, que aqui nasceram, tenham orgulho de continuar a escrever novos capítulos desta história também, se assim for de sua vontade !